13.5.07

008 sem remetente

faz tempo que eu tô pra te escrever,mas eu fico protelando, acho mesmo que é falta de coragem, aí vou dando desculpas pra mim mesmo e arranjo outra coisa pra fazer ou não faço nada e o dia passa, chega a noite e eu não escrevi.

é curioso esse meu comportamento, fico sempre fugindo de alguma coisa, as vezes de muitas, mas você sabe disso, eu não sei mais quem sabe e é melhor eu nem pensar nisso, porque só de pensar que mais alguém pode saber que eu vivo fugindo de um monte de coisas, só de pensar, só essa idéia, já me apavora.

outro dia eu tava pensando que eu tenho um prazer enorme de debochar de mim. não sei, mas comecei a pensar que fazer isso é uma tentativa de me adiantar aos outros, sabe. prefiro que os outros dêem risada das piadas que eu faço sobre mim do que rirem das piadas que os outros fazem sobre mim. vivo tentando antecipar o que os outros podem pensar de mim. sim, eu sei, é projeção demais. tá vendo, tô tentando me antecipar a você.

isso acontece já faz um tempão, acho que começou quando eu descobri que eu era muito parecido com todo mundo e essa descoberta me fez muito mal, por que você sabe o que eu penso da humanidade, então é difícil se sentir como o que você pensa do conjunto de animais humanos que vivem com você. sabe, acho que foi depois disso que eu deixei de ver graça em comemorar meu aniversário e passei a andar junto às paredes, mais próximo das sombras e a me sentar nos cantos, numa tentativa inglória de passar despercebido, como se eu não fizesse parte disso, porque realmente eu não me sinto parte disso, você sabe.

sabe como coisas bobas me incomodam. detesto tampa do vaso levantada, mas eu só falei disso pra você e foi só uma fez também. também não gosto chegar atrasado ao cinema, sei lá, tenho prazer de entrar na sala quando a luz ainda está acessa, bem antes dos trailers e adoro quando o cinema tá vazio, também gosto de sentar bem no meio da fila e de preferência sem estranhos por perto, você sabe disso. ah, sim, claro, tenho raiva de propagandas de carros e de motos. sabe o tanto que me incomoda quando falam do meu cabelo. desde criança me amolam por conta dele, primeiro ele era cortado num formato de tigela, todo liso e bem claro, e um menino dizia que eu era um índio, aquilo me deixava bravo, mais tarde o cabelo ficou curto e como era de se esperar o corte o deixou arrepiado, aí me chamavam de ouriço, na adolescência resolvi deixar crescer, aí era um tio milico que me alugava e agora dizem que o meu corte é emo. e eu não sei o que é emo. mas disso você não sabia.

hoje eu liguei pro restaurante que entrega comida em casa. pedi talharim ao sugo e pudim de leite, a moça do outro lado da linha perguntou se eu queria mais alguma coisa. eu queria, mas o restaurante não tem como me arranjar uma companhia agradável, então eu disse que era só o macarrão e o pudim. o pudim deles lembra o da minha mãe, tenho saudades do pudim dela e da afinidade que não existe mais entre a gente e eu fico pensando que isso tudo poderia ser diferente, mas não é. então o que eu quero é ser um pai legal pros filhos que eu quero ter e um namorado bacana pra namorada que eu ainda não tenho. no fundo você sempre soube disso, mas sempre fingiu que não sabia.

tenho saudades de muitos amigos que não sei nem onde estão e escutar cocorosie só aumenta essa saudade. queria todos eles aqui em casa fumando um baseado e vendo futebol na tv. queria dizer isso pra eles, queria dizer isso faz tempo. também queria escutar alguma coisa assim deles.

você sabe, escrever isso foi muito difícil pra mim. te enviar essa carta mais ainda. acho que um dia eu vou te escrever uma carta com boas notícias, não que as coisas estejam ruins, mas ainda tá difícil.

tem uma coisa curiosa com as suas cartas. elas sempre chegam fora de ordem, eu tenho que ler tudo e descobrir em qual página ela começa e em qual termina. por que você nunca numera suas cartas?

beijos e vê se se cuida,

J.

3 comentários:

Dani disse...

Querido náufrago,
O destino dessa carta-garrafa é incerto...
O onde não existe.
Você pope mirar e jogar, quem se encarrega do onde, do quando, de quem, é o mar...
Ser igual a todo o mundo é encaixar-se nesse puzzle onde você e eu e todos, somos cada um a parte de uma só imagem.

D.D

Auira Ariak disse...

Gostei disso... cartas sem números... Me lembrou algumas que já recebi na adolescencia rsrsrs, Mas a sua está bem mais filosófica.
Engraçado te conhecer por este prisma. Gostei do To pra tudo neste mundo, é ótimo.
PS: Vou sentir saudades dessa Paineira quando vcs mudarem.
Um beijo!

Anônimo disse...

pois é, a gente sempre soube que vc queria ter filhos, mesmo insistindo em afirmar o contrário reiteradamente. né não?

o blog tá bacana, Ju.
gostei bastante, visse? se vc continuar escrevendo prometo continuar lendo, mesmo que na frequencia instável da conexão na ilha do barbudo. beso beso.