23.4.07

005 nina e mirco, ou uma história cheia de clichês

- não sei...

- bom...pelo menos diz que vai pensar nisso.

- acho muito cedo, não sei...

a essa hora ele já estava arrependido de ter aberto a boca. levou muito tempo pra conseguir fazer a proposta, pura insegurança, aí quando ele abre a boca dá nisso. ele não tinha pensado o que faria se acontecesse o que aconteceu. não que não pensasse sempre no pior, ele sempre pensava no pior, mas naquele dia ele estava especialmente confiante.

- é..., você tem razão, vai ver é muito cedo e eu tô me precipitando.

falou isso desviando do olhar dela, olhou pra as mãos e viu que precisava cortar suas unhas e, entre um gole de mate e uma tragada no baseado, percebeu a cagada que tinha feito. pra ele aquele papo de tempo não tinha nada a ver e pensava – cedo, mas que cedo porra? - acabou de fumar e foi pra cama.

começaram a sair sete meses antes desse dia. ele tava no balcão do bar, seu lugar favorito, ela tava com uns amigos. ele ficou olhando pra ela por uma meia hora, até que ela veio falar com ele. a verdade é que ele nunca achava que era com ele. tinha medo de humanos, gostava de alguns, mas tinha medo da espécie, inclusive de si mesmo. como nunca achava que era com ele quase nunca as coisas passavam de trocas de olhar,que poderiam ter se tornado outras coisas, mas ele não sabia como dar espaço pra que isso acontecesse.

o som do bar tava muito alto quando ela se apresentou e perguntou o nome dele, o que a obrigou a falar bem perto do ouvido dele. ele respondeu e ficou pensando o que poderia perguntar pra ela. desprezava a idéia de perguntar o que ela fazia, sempre achou esse o tipo de pergunta cretina a se fazer para uma pessoa que está conhecendo. queria perguntar alguma coisa que a deixasse com uma boa impressão (claro, no entendimento que ele tinha de boa impressão), mas não conseguiu pensar em nada e disse que achava o cabelo dela bonito, o que era verdade, ela agradeceu sorrindo, sabia receber elogios, e pediu um gole da cerveja dele, ficaram se olhando enquanto ela tomava o gole. duas cervejas depois saíram do bar e foram pra casa dela.

daquele dia até hoje eles ficavam quase que todo tempo livre juntos, ou ele na casa dela, ou ela na casa dele. ela tinha terminado um namoro longo seis meses antes de conhecê-lo, ele não saía com ninguém fazia muito tempo. seu último namoro terminará dois anos antes de quando se encontraram no bar, de lá pra cá foram algumas histórias esporádicas. as coisas estavam legais entre eles, bem legais, mas ela não planejava morar com ele naquele momento. ela dividia um apê na santa cecília com uma amiga da época da graduação, ele morava no bixiga com um amigo de sua cidade natal. ele queria morar com ela.

a semana seguinte foi uma merda, inventou um monte de desculpas pra não se encontrarem. no fim de semana foi visitar um amigo que tinha se mudado pra belo horizonte. chorou pacas. a viagem fez bem pra ele. o choro também. não sabia lidar com rejeição, não que fosse esse o caso, mas ele achava que era, voltou pra são paulo sabendo que não era, mas que ela tinha o tempo dela e que ele foi desastroso ao fazer o convite.

chegou em casa e ligou pra ela. queria vê-la. foram ao cinema. cinco meses mais tarde ela escreveu uma carta dizendo que aceitava o convite.

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